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A história do menino a quem Ronaldo deu um abraço: “Não me lembro do que ele disse. Foi uma emoção”

Um cartaz à beira da estrada a dizer “Cristiano dá-me um abraço” fez com que o autocarro da seleção parasse. E Cristiano deu o abraço. Quem o pedia era Eduardo, a quem foi diagnosticado leucemia aos 15 meses, e que ainda hoje não vai à escola, devido à sua imunodeficiência.

Eduardo fez 11 anos no dia 4 de junho e recebeu uma das maiores prendas que poderia receberia. Um abraço do craque Cristiano Ronaldo. É um fã de desde há muito tempo. Há dois anos, esteve quase, quase a realizar o sonho de poder estar junto do jogador, mas mais uma vez a doença que o atacou aos 15 meses, e contra a qual ainda luta, não o permitiram.

A mãe conta como foi: “Vários meninos do IPO do Porto iriam fazer uma viagem em que estariam com o Ronaldo. O Eduardo queria muito ir, mas os médicos tinham muito receio em relação ao seu sistema imunitário, por causa do avião. Mas depois também só podiam ir 12 crianças, o Eduardo já estava a mais e acabou por não ir. ”

Vera, que em setembro do ano passado deu o seu testemunho sobre como o cancro do filho afetou a sua vida como mãe e da sua família, confessa que, na altura, foi uma tristeza para ele. Então, desta vez, “foi o pai que teve a ideia. Disse-lhe que iriam ver o autocarro passar e que levavam um cartaz a pedir um abraço, poderia ser que o Ronaldo visse”.

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Cristiano Ronaldo viu. Desceu do autocarro e foi abraçar Eduardo Moreira, que para todo o lado que vai tem de andar de tubos de oxigénio. Uma leucemia mieloblástica diagnosticada aos 15 meses e posteriores complicações após um transplante assim o obrigam. O pai de Eduardo foi ajudado por um amigo, Tiago, que fez o vídeo de Ronaldo com Eduardo e que o pôs nas redes sociais. Um vídeo que rapidamente se tornou viral e chegou à imprensa internacional.

O menino que raramente sai de casa, que tem aulas em casa, porque não pode ir à escola como qualquer outro menino, devido à fragilidade do seu sistema imunitário, saiu no sábado à rua e a mãe diz: “Foi uma prenda muito grande para ele. Ficou todo emocionado. De tal maneira que quando lhe perguntei o que o Ronaldo lhe tinha dito, ele respondeu: ‘Ó mãe, nem me consigo lembrar. Foi tanta emoção.'”

O autocarro da seleção tinha partido do Estádio do Bessa, no Porto, com a equipa da seleção nacional, depois do último treino de preparação para a final da Liga das Nações, e ao passar à beira da estrada ali estava a criança, agora com 11 anos, e com um cartaz na mão.

Eduardo não mais esquecerá. “É episódio para contar a todos”, disse a mãe. Sobretudo depois de a seleção portuguesa ter ganho a final e conquistado o troféu. Um episódio que para Eduardo, que vive na Trofa com a mãe, o pai e um irmão mais velho, agora com 16 anos, Rafael, faz toda a diferença numa rotina que é mesma desde os 15 meses: muitas consultas por mês, agora de vigilância à diabetes, à tiroide, aos olhos, a doença deixou-o com cataratas, mas “a saúde encontra-se estável”, diz Vera.

Quando a doença apareceu o chão fugiu-lhes, mas logo tiveram de voltar à terra, de ser práticos, até porque tinham outro filho muito pequeno, Rafael, na altura, com seis anos. “Geríamos o dia-a-dia, íamos atrás do que era preciso fazer. Há quem não aguente a pressão… Não é fácil. É uma cambalhota na vida.”

A doença do filho obrigou-os a ficarem quatro meses e meio no IPO do Porto para quimioterapia e mais tarde para um transplante. Correu tudo bem, mas depois vieram as consequências. O enxerto provocou lesões nos pulmões de Eduardo. Por isso, usa oxigénio durante 24 horas e tem de ser ventilado muitas vezes. Faz muita medicação e até há um ano, contava a mãe em setembro, tinha crises constantes, que a obrigavam a sair do trabalho e ir a correr para casa e para o hospital com ele.

Neste caminho, Vera e o marido desanimaram algumas vezes, mas pensam sempre no Eduardo, que é um menino com uma força fora do normal, muito alegre. É isso que nos agarra. Ele é um caso de sucesso.”

Mas também os pais são pessoas de muita força e energia. Um e outro trabalham por turnos para poderem estar sempre com o Eduardo. A empresa onde Vera trabalha “foi compreensiva, não reclamaram e não me despediram” quando foi detetada a doença de Eduardo. Ela teve de ficar de baixa durante quatro anos para o poder acompanhar, porque ele nem para um infantário podia ir, mas ao fim deste tempo “tive de ir trabalhar. Se dois ordenados já são pouco…um só, então”, tinha contado. Então negociou com a empresa o horário das 4.00 da manhã e o marido, que trabalhava por turnos, pediu ao patrão para fazer um fixo, das 14.00 às 22.00. “Eu entro em casa e ele sai, mas conseguimos organizar-nos para estar sempre alguém com ele.”

Eduardo tem várias consultas por mês – diabetes, tiroide, olhos, ficou com cataratas. Já lá vão quase dez anos desde o início da doença. Eduardo continua a ter aulas em casa. Os pais têm de se desdobrar para conseguirem fazer tudo. “Mas fazemos tudo por ele”, admite a mãe.

Vera e o marido confessaram, em setembro, que aquilo que gostariam era de ter mais apoio do Estado ou então uma situação legal que lhes permitisses tratar do filho sem terem de se desdobrarem ou sem quase se verem. À reportagem, Vera disse preferir ser ela a cuidar sempre de Eduardo: “Se estivesse em casa quando começa uma crise do Eduardo, talvez estas não chegassem ao ponto de termos de ir para o hospital e de ele ter de ficar internado, mas não há nada na lei que nos ajude.

“Vivemos com receio, porque pode estar bem e de repente ter uma crise. Há uns tempos estava em casa com a professora e teve uma crise de epilepsia. Desmaiou, vomitou sangue e foi um caos. Tive de vir a correr, chamar o INEM e ir para o hospital. Vivemos todos os dias sem saber o que pode acontecer no minuto seguinte.

Os pais de Eduardo fazem tudo para o ver mais feliz., mas como pais de crianças com uma doença como a dele sentem-se esquecidos. Já basta “o sofrimento dele, de todas estas crianças, para a sociedade é como se não existíssemos”, confessou no ano passado.

Hoje, e depois do abraço de Ronaldo, Eduardo “está todo feliz”, conta a mãe. E isso compensa tudo.