Brasil. “Piadas de português” entram na campanha pró-Bolsonaro

Referência às piadas sobre portugueses foi feita por um deputado federal ao lado do Presidente Jair Bolsonaro, em Brasília. Confrontada pelo i com estas declarações, a embaixada do Brasil em Lisboa demarcou-se e afirmou que o Governo também não se revê nas palavras.

A política brasileira está ao rubro e as piadas sobre portugueses já ganham destaque na campanha pró-Bolsonaro. Com um Executivo debilitado depois de, nas últimas semanas, ter sido demitido Luiz Henrique Mandetta, que estava à frente da pasta da Saúde, e de o ex-juiz Sérgio Moro ter batido com a porta do Ministério da Justiça, Jair Bolsonaro tem tentado de tudo para segurar o Governo e deixar claro que não faria qualquer sentido um impeachment. Nesse contexto, e em pleno caos provocado pela pandemia do novo coronavírus, na última semana, o Presidente brasileiro levou até à porta do Palácio do Planalto – onde habitualmente fala à imprensa na presença de um público que lhe é fiel – vários deputados federais para o defenderem de todas as acusações de que tem sido alvo.

Um desses parlamentares, que discursava perante os jornalistas brasileiros e ao lado de Jair Bolsonaro e de um dos seus filhos, não hesitou em afirmar que pedir o impeachment do Presidente seria uma piada e incitou às piadas sobre portugueses – que historicamente lhes atribuem características de ignorância e falta de conhecimentos.

“É uma piada querer o impeachment de Bolsonaro. Quer piada? Conte uma de português. […] Quer piada? Conte uma do português ou do papagaio, que é melhor…”, repetiu o deputado federal Bibo Nunes, de modo enfático.

Embaixada não concorda com “visões estereotipadas”

Confrontada nos últimos dias com estas declarações do deputado federal levado pelo Presidente para fazer a sua defesa pública, a embaixada do Brasil em Lisboa demarcou-se da posição de Bibo Nunes e afirmou mesmo que o Governo liderado por Jair Bolsonaro também não se revê em tais palavras.

“A Embaixada do Brasil e o Governo brasileiro não compartilham de opiniões ou posições que possam incitar a visões estereotipadas de qualquer indivíduo ou nacionalidade, muito menos com relação a nossos irmãos portugueses”, assegurou, sem responder se vai ou não tomar uma posição oficial perante as autoridades de Brasília e as de Lisboa com vista a evitar qualquer possível mal-estar provocado pelo incidente.

O certo é que as referências às piadas sobre portugueses por parte deste deputado federal do Rio Grande do Sul não foram algo exclusivo daquele momento, dado que, no dia 28 de abril, ele escreveu na sua página de Facebook: “Falar em impeachment de Bolsonaro, prefiro ouvir uma piada de papagaio ou de português”. E a acompanhar esta publicação estava um vídeo onde, num contexto diferente do da conferência de imprensa dada à porta do Palácio do Planalto, usava a mesma argumentação.

O Impeachment é um risco para Jair Bolsonaro?

A saída de Sérgio Moro foi a gota de água: o ex-ministro da Justiça enumerou, ao abandonar o Executivo, diversos factos que podem consubstanciar crimes do Presidente, incluindo de responsabilidade – que são passíveis de perda de cargo. Nesse sentido, a Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal que investigasse as denúncias do antigo superjuiz da Lava Jato (ver texto ao lado).

Mas o impeachment não depende só da justiça e a maioria dos líderes dos principais partidos tentam afastar esse cenário. Ainda assim, é certo que ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, chegaram vários pedidos de destituição do Presidente ao longo dos últimos meses. E com a tensão a crescer e o Governo cada vez mais frágil, há já quem duvide do cenário apontado pelos líderes dos principais partidos.