Coronavírus: Portugal na fase exponencial

Tempo médio de duplicação de casos está actualmente nos 1,9 dias, já esteve melhor e já esteve pior. Os casos confirmados tiveram uma variação de 43% em relação a terça-feira e o total de casos suspeitos de 25%.

A equipa de investigadores da Universidade de Coimbra é uma das muitas a trabalhar sobre a pandemia da covid-19 no mundo e já chegou a algumas conclusões. Fizeram, por exemplo, uma análise ao tempo de duplicação que corresponde ao tempo que o número de infectados demora a duplicar – na China era preciso esperar em média entre três a quatro dias. Actualmente, o tempo médio de duplicação de casos confirmados está nos 1,93 dias, já esteve pior (no domingo com 1,87) e também já esteve melhor (na segunda-feira com 2,33 dias). Quando maior o número, melhor.

Francisco Caramelo, investigador na Universidade de Coimbra, tem estado a trabalhar os dados de propagação da covid-19 – com uma equipa que inclui outros dois investigadores da mesma instituição, Bárbara Oliveiros e Nuno Ferreira. O investigador já tinha dito ao PÚBLICO que os dados de Portugal “são novos e têm vindo a variar na forma como são divulgados e nos tempos”. Uma irregularidade que faz com que seja (ainda) mais difícil fazer previsões, admitiu. “Os métodos de previsão podem ser bastante variados, podendo incluir modelos de previsão baseados em compartimentos, ajuste de curvas, simulação computacional e inteligência artificial”, acrescenta Nuno Ferreira, outro dos elementos da equipa que diariamente publica os seus dados e gráficos num site de acesso aberto.

Segundo o mais recente boletim epidemiológico, divulgado esta quarta-feira pela Direcção-Geral da Saúde (DGS), há 642 casos de infecção pelo novo coronavírus em Portugal, mais 194 do que na terça-feira — o que corresponde a uma variação de 43% face ao dia anterior​. Os números mostram que a epidemia continua a crescer em Portugal, o coronavírus vai demorar ainda algum tempo a chegar ao topo da curva no gráfico. Não se sabe quanto tempo.

“De momento, ainda se está na fase exponencial e não se sabe ao certo quando ocorrerá o ponto de inflexão, que é onde a curva do total de casos confirmados começa a crescer a um ritmo cada vez menor”, constata Nuno Ferreira. Mas, além da linha que mostra o total de casos, há uma outra curva sobre os novos casos que também importa. “O pico da curva dos novos casos corresponde ao ponto de inflexão da curva do total de casos. Por enquanto, em Portugal, estamos antes desse ponto de inflexão da curva do total de casos e o número de novos casos ainda está a aumentar”, adianta o investigador. Nesta fase, conclui, interessa-nos “atingir o ponto de inflexão em poucos dias e fazer diminuir rapidamente a curva de novos casos (aumentando rapidamente a de casos recuperados)”.

Os dados da DGS confirmam duas mortes e três pessoas recuperadas, além de 352 pessoas a aguardar resultado laboratorial. O aumento de casos registados nos últimos dias prova o crescimento da epidemia, mas também, sublinhe-se, reflecte o aumento do número de testes de diagnóstico realizados.

Os boletins da DGS contabilizam o total de casos suspeitos todos os dias. Partindo do princípio de que os casos validados como suspeitos são alvo de um teste de diagnóstico, é possível perceber a partir destes números quantos testes foram realizados no SNS (sem contabilizar os testes feitos nos laboratórios privados). Os dados mostram que a capacidade de diagnóstico também aumentou.

A 12 de Março existiam 637 casos suspeitos que terão sido alvo de testes e no dia 18 o número ascendia a 5067, o que representa uma variação de 695% (oito vezes mais), acompanhando o aumento de casos confirmados (de 78 para 642), com uma variação de 723%. Entre terça e quarta-feira, a diferença entre o total de casos suspeitos (4030 e 5067, respectivamente) é de 25%, mas, como já se disse, o crescimento do número de casos confirmados (de 448 para 642) é bastante superior, revelando uma variação de 43%. Isto significa que não só a epidemia está a crescer (como mostra o aumento de casos confirmados), como a detecção e despistagem de casos suspeitos também aumentaram. O que ninguém sabe ou pode responder é quantos casos de infecção existem que, por serem assintomáticos ou por outras razões, não chegaram nunca aos serviços e a estas contas de saúde pública.