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“Cuidados com os falsos amigos.” O que diz o testamento de Alexandre Soares dos Santos?

O empresário deixa metade das contas bancárias e da carteira de títulos à sua esposa, Maria Teresa. Lança uma nova fundação com 10 milhões de euros para ajudar crianças desfavorecidas. Cada um dos 17 netos recebe 25 mil euros, segundo a Sábado.

No terceiro e definitivo testamento, registado no notário a 4 de abril de 2018, Alexandre Soares do Santos deixa 25 mil euros a cada um dos seus 17 netos, distribui pelos sete filhos as peças de maior valor como um Jaguar XK, relógios de coleção e botões de punho e atribui 10 milhões de euros a uma nova fundação para crianças carenciadas.

A mulher, Maria Teresa, companheira de 60 anos na vida pessoal e nos negócios, fica com metade das três contas conjuntas – uma no Luxemburgo, uma em Londres e a terceira em Genebra, e metade de todas as ações, obrigações e títulos. O empresário deixa-lhe ainda os recheios das casas de Lisboa e de Ourém. O casal estava casado em regime de separação de bens.

Na edição desta quinta-feira, a revista Sábado publica o testamento deixado por Alexandre Soares dos Santos, fundador da cadeia Pingo Doce, dono da segunda maior fortuna de Portugal e falecido a 16 de agosto, aos 84 anos. Na altura do testamento, o empresário lutava contra o seu quarto cancro e não sabia quanto tempo de vida lhe restava.

“CUIDADOS COM OS FALSOS AMIGOS”
Na mensagem de despedida, o empresário realça que a família “deve ser a prioridade”, alertando para os “falsos amigos” que só “têm interesse pelo vosso dinheiro”.

E deixa uma mensagem emotiva à mulher, Maria Teresa e dirige-se aos filhos e netos para acentuar que a família deve ser a prioridade: “O respeito pelo passado, o respeito e a amizade que nutrem uns pelos outros, deve sobrepor-se a tudo o resto.

Cuidado com os falsos amigos, com aqueles que só têm interesse pelo vosso dinheiro. Cuidado com aqueles que não suportam que sejamos uma Família exemplar, com valores, princípios e condutas irrepreensíveis”.

Na carta de despedida, agradece “o amor e carinho da minha mulher e a maior parte dos meus filhos me dedicaram”. Avisa que “a inveja e o crime podem arrasar tudo”.

Pede aos filhos para respeitarem e seguirem o exemplo “da Vossa Mãe, excelsa Senhora, que pela sua inteligência, cultura e educação, tantas invejas suscitou”. Uma “Mãe severa, porque conservadora, mas uma Mãe generosa, cuidadosa, zeladora de vocês – e vocês constituem o seu tesouro -, assim como dos netos e bisnetos, que infelizmente pouco conheci!”.

Alexandre e Teresa casaram em 1957, quatro anos depois de se conhecerem numa viagem de barco entre África e Portugal.

UMA VIDA BELA
Na carta de despedida, trata a mulher “minha Querida Pequenina”. A vida “foi bela, única, honesta e nada nos esmoreceu, nada nos abateu e creio que fomos dignos um do outro”. “A palavra Amor é aquela que sempre nos uniu, mais do que qualquer outra”. E acrescenta. “Foste uma mulher maravilhosa, nos conselhos, no dia a dia da nossa vida, sempre pronta a seguir em frente.”

Segundo a Sábado, o primeiro testamento de Soares dos Santos datava de de 1976, numa altura em que fortuna da família Soares dos Santos estava muito longe dos 3,5 mil milhões de euros em que está atualmente avaliada.

Na altura, o filho mais velho do casal, Francisco Manuel, tinha 18 anos e a filha mais nova, Maria Inês, tinha feito 2 anos. Esse testamento indicava “como herdeira ou melhor legatária do usufruto vitalício de todos os seus bens, a sua mulher Maria Teresa”.

Entre 1976 e 2018 muito se alterou na vida pessoal e empresarial de Alexandre Soares dos Santos. Viu nascer 18 netos e sete bisnetos, completou 60 anos de casamento e a saúde atraiçoou-o diversas vezes: primeiro um cancro na próstata (1999) que combateu com tratamento no estrangeiro, depois um bypass devido a problemas nas artérias e mais tarde um cancro nos intestinos e outro no fígado.

“A vós, meus filhos cabe-vos a responsabilidade de continuar a obra iniciada há tantos anos e que hoje não só é grande como admirada. Tudo quanto seja para desgastá-la ou prejudicá-la é um crime imperdoável, pois, além de desfazer o muito que foi feito, prejudicará o futuro de outros”, escreve na despedida.

DISTRIBUIÇÃO DE RELÓGIOS E JÓIAS
O empresário deixa a cada um dos netos uma herança de 25 mil euros, não recebendo os filhos diretamente qualquer montante em dinheiro. Para os filhos ficam alguns bens de valor e jóias que, segundo a Sábado, podem oscilar entre alguns milhares e os dois milhões de euros.

Por exemplo, Pedro, atual gestor da Jerónimo Martins, fica com o relógio Patek Philippe que o pai “usava durante o verão”. Um outro Patek Philippe oferecido a Soares dos Santos pelos descendentes fica para o filho José. E o Patek Philippe que era do pai de Soares dos Santos fica para o neto mais velho, Francisco Manuel.

Francisco, o filho mais velho, pôde escolher um dos relógios da coleçâo, uma vez que “o relógio que em tempos lhe foi oferecido pelo testador lhe foi por aquele entretanto devolvido”, e os restantes relógios de pulso “lega-os aos seus demais filhos que nisso tenham gosto”. Por fim, os botões de punho em ouro e o Jaguar XK 5.0 Convertible Portfolio de 2011 (que terá um valor comercial de 50 mil euros) ficaram para o filho Henrique.

E no testamento deixa um aviso: “Alguns de vocês acusam-me de vos ter prejudicado, mas eu garanto que nunca, por nunca prejudiquei um Filho. Tive de fazer escolhas e, evidentemente, alguns não gostaram”.

O empresário não se esqueceu dos colaboradores mais próximos. A eles, aos caseiros da quinta ou à porteira do prédio que habitava o testamento atribui quantias entre os 10 mil e 25 mil euros.

UMA TERCEIRA FUNDAÇÃO
Nas fundações da família, não há duas sem três. Além da Fundação Francisco Manuel dos Santos e da Fundação Oceano Azul, que atualmente está à frente do Oceanário de Lisboa, surge agora uma terceira.

No testamento, Alexandre Soares dos Santos encarrega aos filhos, especialmente José, Henrique e Inês, de patrocinarem um projeto ” para apoiar em Portugal, crianças e Jovens mais carenciados, assegurando-lhes condições de acesso ao ensino e uma educação que lhes permita obter qualificações”.

A nova instituição será dotada de 10 milhões de euros iniciais, através de uma empresa já criada. Para dirigir a nova fundação estão apontados os nomes de Nuno Crato e Miguel Poiares Maduro.

O grupo da família Soares dos Santos rege-se por um Conselho de Família, um órgão informal criado há 10 anos, que aprecia os principais assuntos relacionados com a gestão dos negócios e da preparação das novas gerações.