Dos clubes a CR7, quase ninguém escapou ao Football Leaks

Dos clubes a CR7, quase ninguém escapou ao Football Leaks

Quando surgiu, parecia ter o Sporting como alvo preferencial, mas rapidamente deixou a nu quase toda a elite do futebol. Cristiano Ronaldo foi um dos mais afetados pelas ações do pirata Rui Pinto.

Anunciou-se ao mundo no dia 29 de setembro de 2015 e rapidamente abalou os bastidores do futebol português (primeiro) e mundial (pouco depois), denunciando contratos promíscuos de clubes, comissões até então escondidas, partilhas de passes proibidas, esquemas de evasão fiscal e até uma acusação de violação ao capitão da seleção nacional, Cristiano Ronaldo.

Criado pelo hacker português Rui Pinto – detido na última quarta-feira em Budapeste, na Hungria -, o site Football Leaks veio deixar a nu grande parte dos vícios até então privados do futebol e dos seus ídolos. O projeto apresentou-se como uma plataforma para expor “a parte oculta do futebol”. “Fundos, comissões, negociatas, tudo serve para enriquecer certos parasitas que se aproveitam do futebol, sugando clubes e jogadores”, lia-se na mensagem de apresentação.

Rui Pinto é agora acusado também de estar na origem da divulgação dos e-mails do Benfica (através de outras plataformas) que resultaram em vários processos judiciais a envolver o clube da Luz, mas, no início do Football Leaks, Sporting, FC Porto e o fundo Doyen, do empresário português Nélio Lucas, pareciam os alvos privilegiados.

O Football Leaks começou por publicar uma grande quantidade de contratos ligados, sobretudo, ao clube de Alvalade. Como o contrato do treinador Jorge Jesus, que no verão anterior tinha trocado o Benfica pelo Sporting, ou os contratos falhados para a aquisição dos jogadores Mitroglou e Cervi, que acabariam no rival da Luz, e os documentos confidenciais do braço-de-ferro entre leões e o fundo Doyen no caso Rojo, defesa argentino que se mudara para o Manchester United.

A perceção de que o Sporting, sobretudo, e o FC Porto eram os principais visados pelo(s) pirata(s) informático(s) levou mesmo o presidente leonino na altura, Bruno de Carvalho, a sugerir que seria o Benfica a estar na origem do Football Leaks – e em concreto Pedro Guerra, comentador televisivo afeto aos encarnados, que 15 dias antes tinha mostrado na TVI24 um draft do contrato oferecido pelos leões a Mitroglou, depois publicado no site.

Um facto, de resto, relembrado na última quinta-feira pelo diretor de comunicação do FC Porto, Francisco J. Marques, na reação à detenção de Rui Pinto.

Extorsão à Doyen?
Sobre o clube da Luz (mais tarde também exposto), as primeiras revelações do site incluíam apenas pormenores sobre a transferência do holandês Ola John, a envolver também a Doyen.

O fundo de investimento e o seu CEO, Nélio Lucas, viram publicados vários documentos sobre o envolvimento em negócios de passes partilhados (como os que respeitavam ao então portistas Mangala, Defour ou Imbula), o que originou uma alegada tentativa de extorsão de Rui Pinto à Doyen, num encontro entre Nélio Lucas e o advogado Aníbal Pinto, em representação do hacker de Vila Nova de Gaia, numa estação de serviço da A5, perto de Lisboa. Foi a investigação no âmbito da queixa da Doyen à PJ que levou agora à detenção de Rui Pinto, em Budapeste.

Impostos do “universo Mendes”
Depois de sete meses a publicar segredos relativos não só ao futebol português como a vários clubes e craques de topo mundial, o Football Leaks anunciou uma pausa na atividade a 26 de abril de 2016.

A informação na posse do site foi então passada para um consórcio europeu de investigação que reunia publicações de vários países. Em dezembro desse mesmo ano, a informação começou a ver a luz do dia e as ondas de choque alastraram-se rapidamente.

Uma das revelações mais consequentes acabou por ser aquela que envolveu várias figuras do universo do empresário Jorge Mendes em elaborados esquemas de alegada fuga ao fisco, com recurso a empresas localizadas em off-shores.

Cristiano Ronaldo acabou por ser um dos mais afetados, ao ver o Fisco espanhol acusá-lo de ter sonegado 14,7 milhões de euros nas declarações fiscais entre 2011 e 2014. Um caso que só teve resolução no último verão, quando o jogador aceitou pagar 18,8 milhões de euros e ficar com uma sentença suspensa de dois anos de prisão, antes de trocar o Real Madrid pela Juventus.

Mas CR7 não foi o único português representado por Mendes a ver-se a contas com o Fisco espanhol depois das revelações proporcionadas pelo Football Leaks. José Mourinho (dois milhões de euros e um ano de pena suspensa, no último verão), Fábio Coentrão, Ricardo Carvalho e Pepe também tiveram de compensar a “Hacienda”.

O escândalo Mayorga
Se o caso fiscal já tinha desgastado Cristiano Ronaldo, em setembro passado o internacional português viu o seu nome abalado por um outro escândalo de maiores repercussões, destapado pelo jornal alemão Der Spiegel, de novo com base em documentos obtidos pelo Football Leaks: uma queixa de violação apresentada pela norte-americana Kathryn Mayorga contra o jogador, com quem se encontrou numa festa em Las Vegas, no verão de 2009.

A revelação, assumida pela própria norte-americana em entrevista ao jornal, levou a polícia de Las Vegas a reabrir o caso e deixou Cristiano Ronaldo – que já negou publicamente a violação – com essa importante batalha pela frente.

Falta agora confirmar se Rui Pinto, cujos advogados já admitiram ser o rosto do Football Leaks, é também o pirata que roubou os e-mails do Benfica (e, recentemente, da sociedade de advogados PLMJ).