Emigrantes avisam para impacto do desemprego na comunidade

O conselheiro das comunidades em França Rui Barata avisou hoje o Estado português para se preparar para o aumento do desemprego entre os emigrantes, pedindo o reforço dos apoios e a colocação de adidos sociais nos consulados.

Na semana passada, o Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Económicos francês informou que há mais 500 mil desempregados no país, e esta crise está a afetar muitos portugueses.

“O Estado português deveria antecipar a colocação de adidos sociais nos consulados o mais rápido possível. Temos de conseguir antecipar as consequências que virão nos próximos meses com esta crise e com a perda de emprego de muitos portugueses que chegaram há pouco tempo”, afirmou à Lusa Rui Barata, conselheiro das Comunidades Portuguesas em Estrasburgo.

Uma grande parte destes novos desempregados inclui trabalhadores temporários, nalgumas áreas onde tradicionalmente a comunidade portuguesa encontra emprego, tal como a construção civil, serviços ou logística.

“Uma grande parte da nossa comunidade, apesar de já não ser como era há 10 ou 20 anos, trabalha neste sistema. Também lhes dá flexibilidade e permite encontrar sempre trabalho”, indicou Carlos Vinhas Pereira, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Franco-Portuguesa (CCIFP), referindo que devido à covid-19, deixará de ser possível encontrar com facilidade novos contratos de curta duração já que as empresas viram reduzida a sua atividade.

Estes números levaram o ministro da Economia, Bruno Le Maire, a reagir e a dizer que quer o regresso o mais rápido possível à “normalidade”.

“Não vai ser possível absorver todas as pessoas nesta situação até ao final do ano. Todos os negócios que foram perdidos, estão perdidos definitivamente. Mas vai haver uma retoma, lembro que em França ainda não estamos completamente desconfinados”, recordou Carlos Vinhas Pereira.

A esperança é que os novos anúncios do Presidente acelerem o desconfinamento, permitindo assim às empresas de restauração, construção civil e outros setores que retomem a sua atividade em pleno.

Por enquanto, o Governo continua a suportar o desemprego parcial que em França chega a 84% do salário, mas esta medida não cobre quem está entre trabalhos.

Alguns relatos de situações de precariedade começam a fazer eco na comunidade portuguesa, reforçando a importância de uma maior proatividade das autoridades nacionais.

“Há casos de pessoas que começam a ficar extremamente preocupadas. Tem de haver um trabalho da diplomacia portuguesa para fazer um levantamento das pessoas de risco, aquelas mais próximas da reforma e que ainda hoje continuam com trabalhos a prazo”, avisou Rui Barata.

Carlos Vinhas Pereira está ainda preocupado com outro setor da população, os jovens que vão agora chegar ao mercado de trabalho recém-formados.

“São cerca de 700 mil jovens e não há trabalho suficiente para eles. Hoje estamos a ver muitos currículos que podem ficar sem resposta, também de lusodescendentes”, alertou o presidente da CCIFP.

De forma a minimizar o estigma das possíveis dificuldades vividas na comunidade, Rui Barata é favorável a uma campanha de sensibilização que leve os emigrantes a pedirem ajuda.

“Há esta certa vergonha, já que uma pessoa que deixa o seu país, deixa-o porque entende que vai ter melhores condições e nós sentimos isso na comunidade portuguesa, que é ter medo ou vergonha de pedir apoio aos próprios conterrâneos. Talvez uma campanha de apoio com os gabinetes de apoio aos emigrantes e aos municípios portugueses possa ser importante”, sublinhou o conselheiro.

Vários analistas avisam que a crise económica pode mesmo levar à supressão de 800 mil postos de trabalho em França até ao final do ano, colocando a taxa de desemprego do país nos 13% em 2020.