Home / Comunidades Emigrantes / Enfermeira Carolina emigrou há dez anos. Hoje lidera equipa em Cambridge

Enfermeira Carolina emigrou há dez anos. Hoje lidera equipa em Cambridge

Quando chegou a Inglaterra, em 2009, foi a primeira portuguesa a ser empregada no hospital. Três meses depois eram já mais de 40. “Em Portugal estava há anos sem progressão na carreira”, explica Carolina Relvas, chefe de equipa num dos maiores hospitais britânicos.

Em 2009, Carolina Relvas Britton já era enfermeira portuguesa com seis anos de profissão. Até tinha dois empregos, nos hospitais de Santa Marta e de St.Louis (privado), em Lisboa, sempre em bloco operatório. “Estava há seis anos a trabalhar sem progredir na carreira. Estava muito envolvida no transplante pulmonar, o que me dava bastante prazer, mas efetivamente não via saída. Foi pelo desafio profissional que decidi sair para Inglaterra”, no Porto, onde a portuguesa que hoje lidera uma equipa de educação de enfermeiros de cuidados perioperatórios no Hospital Universitário de Cambridge, um dos maiores do Reino Unido, esteve como oradora convidada na I Convenção Internacional de Enfermeiros, que decorre até sábado.

Foi um salto com sucesso. Há dez anos ainda não se sentia muito a crise financeira, apesar de já existir. A troika chegou mais tarde. “Apesar de ter dois empregos, era difícil pagar ao banco pelo empréstimo da casa, estava com as dificuldades que toda a gente tinha, mas não foi por isso que fui, queria crescer como profissional. Aqui não era possível”, recorda a enfermeira hoje com 37 anos e com um apelido britânico acrescentado devido ao casamento já em Inglaterra.

A integração foi imediata. “Progredi muito rapidamente. Reconheceram logo o treino que tinha e fui a primeira enfermeira portuguesa a ser empregada naquele hospital. Tem piada já que passados três meses houve um recrutamento direto em Portugal porque eles perceberam que os enfermeiros portugueses eram o que eles precisavam, por estarem muito bem formados. Vieram cá recrutar e de repente, só no meu departamento eram mais de 40 portugueses. A Unidade de Cuidados Intensivos funcionava à noite só com enfermeiros portugueses”, diz Carolina Britton.

No Reino Unido procurou aquilo que sempre teve como objetivo: a valorização profissional. E ter sido formada em Portugal ajudou. “O nosso currículo é muito bom e a nossa experiência a trabalhar no SNS tem semelhanças com o serviço nacional inglês (NHS), nomeadamente no sistema de valores, o que faz com que a transferência seja muito fácil, muito rápidos. E depois somos trabalhadores árduos, é quase cultural e reconhecido por todos.” Completou a formação com uma pós-graduação e o mestrado no Imperial College, em Londres.

São milhares de enfermeiros portugueses a trabalhar em unidades de saúde britânicas e Carolina diz que a opção pelo Reino Unido é boa. “Pode ser mais fácil pagar as contas mas o melhor é mesmo a nível de progressão profissional. Não ficamos parados”, explica a portuguesa que na convenção falou sobre a sua especialidade, os cuidados perioperatórios.

“É uma área da enfermagem com uma história longa, sempre houve enfermeiros em cirurgias, mas que neste momento está a sofrer avanços tecnológicos muito grandes, que exigem bastante dos profissionais que trabalham em cirurgia. Em alguns países da Europa, incluindo a Inglaterra, há um grande potencial de desenvolvimento dos enfermeiros em práticas avançadas”, aponta. Estas práticas avançadas levam hoje os enfermeiros a ganharem mais competências, na prescrição e nas pequenas cirurgias, por exemplo. “Não é só no bloco operatório, há a avaliação pré-operatória e o cuidado dos doentes no pós-operatório. E é trabalho contínuo, com a noção de seguir o doente na sua jornada hospitalar, em que se deve prestar os cuidados adequados à situação de vulnerabilidade em que está. Isto é muito importante. E cada vez vai haver mais cirurgias, com as pessoas a viverem mais tempo.”

Educação contínua é importante
Em Portugal, os recentes protestos com a greve cirúrgica exigia uma categoria de enfermeiro especialista. Carolina Britton compreende mas aponta que no hospital de Cambridge há uma visão mais abrangente. “A defesa de uma categoria é secundária ao cuidado especializado. Se ele é reconhecido sob a forma de especialização, de uma categoria, de uma diferenciação de carreiras, é variável. Há países em que resultou de uma forma, outros seguiram por outra. O conhecimento científico e o discurso que está impregnado no cuidado do doente é o facto especial na enfermagem. A categoria é responder a muitas outras circunstâncias, mais do que ao cuidado do doente em si. Agora é necessário entrar em desenvolvimento de especialistas, sim a educação é mesmo importante.”

No Hospital Universitário de Cambridge, onde trabalham quase dez mil enfermeiros, a portuguesa é responsável pela formação contínua dos profissionais nos serviços perioperatórios. “Asseguramos que quem vem trabalhar connosco, sejam enfermeiros acabados de sair da escola sejam profissionais com 15 anos de trabalho, tenha um programa específico formatado para o cuidado do doente cirúrgico”, explica. Hoje não presta cuidados diretos de enfermagem. “Trabalho com enfermeiros e com todos os profissionais que prestam serviço no bloco operatório, incluindo auxiliares, fisioterapeutas, radiologistas e outros técnicos.”

A unidade inglesa goza de autonomia dentro do NHS, um pouco à semelhança dos hospitais EPE em Portugal, e discute-se muito também o futuro a nível de serviço nacional de saúde. “É uma matéria em voga, quando se pensa em sustentabilidade e como vamos pagar, com cada vez mais pessoas a envelhecerem. Vamos precisar de mentes brilhantes para novas soluções. Mas o NHS inglês tem 75 anos, é mais velho que o SNS, e até agora tem funcionado muito bem. Há orgulho em ser do serviço público e creio que em Portugal isso existe da mesma forma.”

De resto, confessa que nem tem acompanhado muito a situação em Portugal e nível de saúde. “Não tenho seguido muito por uma razão simples – o Brexit tem ocupado toda a minha atenção. Nos enfermeiros, felizmente abriu-se uma “Via Verde” para os portugueses e vão poder continuar lá. Não vai haver problema. Somos necessários e valorizados.” A bastonária da Ordem dos Enfermeiros diz que há cerca de 18 mil enfermeiros a trabalhar fora do país, sendo o Reino Unido o principal destino. Carolina Britton fica satisfeita por estar nesta convenção em Portugal, organizada pela Ordem dos Enfermeiros. “Quando trabalhava cá sempre vi a Ordem com um apoio importante para os enfermeiros e isso continua.”

O doente como foco principal
Do mesmo hospital está também no Porto Rachael May, diretora de uma unidade de enfermagem. Lidera cerca de 1800 profissionais, uma “força multicultural, com muitos portugueses, italianos, gregos, filipinos, indianos e outros”. Os portugueses “estão bem preparados” reconhece. “Proporcionamos sempre educação a todos os enfermeiros que chegam ao hospital. Os portugueses estão preparados e integram-se muito bem”, diz Rachael May, explicando que precisam de profissionais de fora devido à falta de enfermeiros novos no Reino Unido. “Muitos ingleses reformaram-se e não formamos novos em número suficiente.”

As técnicas avançadas são o tema da intervenção de May. “Sobretudo sobre a prescrição por enfermeiros. É um avanço, permite que os doentes tenham acesso mais fácil e mais rápido, podemos reduzir a ocupação de camas com isso, e para os enfermeiros é uma valorização profissional muito importante. Acima de tudo, creio que melhora o tratamento do doente.”

Em Cambridge é tudo digital, “já não há papel”, mas as transformações tecnológicas são muito mais vastas. Como se conjuga esta relação entre enfermeiros a prescrever, os médicos e a tecnologia? “Os médicos do nosso hospital têm apoiado muito estas práticas avançadas. É bom para todos. Temos um processo muito claro e bem definido, fazemos parte de uma universidade o que ajuda”, diz Rachael May, apontando Carolina Britton como um bom exemplo. “Tem uma grande paixão pela enfermagem e é uma pessoa muito motivada. Isso é muito importante. Tem feito um trabalho excecional, de excelência com muito foco nos doentes.”

Esta ideia é mesmo central para esta especialista britânica. Entende bem as reivindicações dos enfermeiros portugueses, “com um sistema de nacional saúde mais recente que o inglês”, mas diz que no Reino Unido também existem problemas e o objetivo dos enfermeiros deve ser a educação. “Temos de nos centrar nos nossos pacientes. É para eles que existimos. Para isso, é fundamental haver educação contínua, estar melhor preparado. As outras coisas acabam por ser resolvidas se fizermos bem o nosso trabalho.”

Outra temática que irá dominar o futuro é a tecnologia. “Há uma evolução muito intensa. Mas a tecnologia será sempre uma ferramenta que médicos e enfermeiros utilizam. As máquinas nunca podem fazer o trabalho de um enfermeiro, mas devem ser usadas pelos enfermeiros”, avalia.

Na convenção, que decorre na Alfândega do Porto, participa May Karan, presidente da Associação Europeia de Enfermeiros de Cuidados Perioperatórios. Questionada sobre se os profissionais desta área devem ter uma categoria de especialização, concordou. “É já reconhecida em vários países. É um trabalho muito técnico, cada vez mais, e requer especialização. É necessária educação específica para melhor servir o doente. A especialização deve ser reconhecida por todos os países”, afirmou.

A I Convenção Internacional dos Enfermeiros realiza-se num período de crispação entre a Ordem e a ministra da Saúde, após esta ordenar a realização de uma sindicância à estrutura. Em representação do Governo esteve presente o secretário de Estado da Saúde, Francisco Ramos, que elogiou o papel dos enfermeiros. “Deve ser privilegiado o caráter multidisciplinar da saúde, reconhecendo a importância de todas as profissões, entre elas a enfermagem, que tem de ser reconhecida, valorizada, encarada como o pilar que é esta profissão para a prática dos cuidados de saúde que queremos”, afirmou.

Sem nunca referir a sindicância, a bastonária Ana Rita Cavaco teve palavras mais duras e com destinatário óbvio. “Tudo estaria hipocritamente calmo se nós tivéssemos vindo para não destapar feridas. Se não tivéssemos denunciado situações terceiro-mundistas em vários hospitais, se não nos tivéssemos indignado contra a exploração e ‘burnout’ dos enfermeiros. Tudo estaria calmo se tivéssemos vindo para silenciar e não abrir a porta da Ordem dos Enfermeiros”, disse na abertura da convenção.

pub