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“João Félix poderia ser a grande referência que tem faltado ao Benfica”

Técnico encarnado concedeu uma extensa entrevista à BTV.

Bruno Lage, técnico do Benfica, lançou os dados para a nova temporada em extensa entrevista à BTV. O técnico encarnado mostrou o seu lado mais pessoal, revelou aquilo que tem preparado para este período de pré-época e ainda abordou os objetivos para a Liga dos Campeões. Lage também não fugiu à possibilidade de poder perder João Félix para o Atlético de Madrid.

Desligar do futebol nas férias: “Do Benfica, não. Estive sempre ligado e em contacto para preparar a época da melhor forma. Relativamente ao futebol, não acompanhei muitos desafios durante as férias. No entanto, tive de observar muitos jogos e neste momento o Wyscout é uma ferramenta muito importante para o treinador, porque em qualquer lado podemos estar a observar e podemos estar a trabalhar.

Foi preciso andar disfarçado nas férias?: “Foi. Chapéu e óculos, o bigode não consegui arranjar [entre risos], mas mesmo assim as pessoas reconhecem-me. Aquilo que me deixa satisfeito não é por ser conhecido, mas sim por ser reconhecido pelo trabalho que fizemos. Não vou mudar nada na minha vida, vou continuar a frequentar os mesmos espaços. Se de alguma forma puder, quando há este tipo de contacto, falar um pouco com as pessoas que me vão abordando, isso pode ser positivo. Eu não quero mudar, mas também não quero que as pessoas me mudem, por isso tem de ser aqui um pouco de pedagogia, de troca de ideias para que as pessoas percebam que é muito importante ter o meu espaço. Há o Bruno que representa a figura do treinador do Benfica, neste momento. Quando estou no meu trabalho, eu sou o treinador do Benfica e as solicitações têm de ser de acordo com a posição. Quando as pessoas me abordam nessas circunstâncias eu paro, saio do meu carro e estou um pouco com elas. Quando vou no meu dia a dia, pela rua, ou num restaurante, não são as pessoas que vão ao meu encontro, sou eu que estou a viver a minha vida. Quando estou na minha vida, com a minha mulher e o meu filho, gostava que as pessoas respeitassem esse espaço, porque eu ao final do dia sou só o Bruno.”

Homenagem a Jaime Graça: “Foi um pedido que fiz à minha mulher quando soube que era um menino. Tinha de ser Jaime Lage. Jaime para homenagear o Jaime Graça e Lage para homenagear o meu pai, mas também para de alguma forma ter o nome com que as pessoas me conhecem. Eu sou o Bruno Lage por ser filho do Lage. O meu nome é Bruno Miguel Silva do Nascimento e ninguém me conhecia, por isso é que o meu irmão é Luís Nascimento e ninguém me conhecia por Bruno Nascimento. Era o filho do Lage, ou o Lage, ou o Bruno Lage, e foi a partir daí que surgiu isso. O Jaime [Graça] porque foi realmente uma pessoa muito importante na minha carreira e na minha vida pessoal, o Lage para ter o nome do avô e também o nome pelo qual o pai é conhecido.”

Metodologia da pré-temporada: “É tentar aproximar, desde o primeiro dia, tudo aquilo que pretendemos que a equipa represente em campo logo em treino. É verdade que temos de ter algumas preocupações, o espaço de férias é cada vez menor, o jogador também se prepara de uma outra maneira, por isso a entrada na época é feita de outra maneira e começamos a preparar a equipa para jogar. Perceber muito bem que podemos fazer determinados exercícios, eventualmente na segunda, terceira ou na quarta semana, sempre numa intensidade muito alta, mas com a solicitação e o tempo de recuperação um pouco diferentes para de alguma forma os jogadores começarem a habituar-se ao esforço pretendido. O nosso grande objetivo é que a equipa, logo desde o primeiro dia, comece a treinar e a adquirir comportamentos que queremos que tenha nos jogos. A nossa entrada na época é para preparar o primeiro jogo de treino, que é contra o Anderlecht [10 de julho], e a partir daí começamos a trabalhar de acordo com a resposta que os jogadores forem dando em termos físicos e técnico-táticos, e começamos a desenhar o resto da pré-época.”

Jogos de preparação: “Um período muito curto de férias, um período muito curto de pré-época… Vamos fazer a primeira semana ainda sem os jogadores que estiveram a representar as seleções, por isso, vamos ter praticamente duas semanas em que vamos olhar só para aquilo que é nosso e a partir daí começar a olhar também para aquilo que é a estratégia para os jogos seguintes. Com esses cinco jogos, e com essas três/quatro semanas de trabalho, vamos tentar apresentar-nos da melhor maneira para o jogo da Supertaça.”

Manter o 4x4x2?: “Em princípio será essa a base [4x4x2], mas há dois ou três jogadores que nos podem dar a oportunidade de jogar de outra forma. Mais importante do que o sistema é as pessoas olharem para o jogo e identificarem que aquela é a equipa que nós queremos a jogar e que vimos na época passada. Uma equipa a ter a iniciativa, que quando perde a bola tem uma transição forte, que quer recuperar a bola, que defende em bloco com forte pressão e que quando ganha a bola, em determinados momentos, em dois três passes está perto da baliza para chegar ao golo. É essa equipa que pretendemos apresentar, é com essa ambição que vamos começar a época para jogarmos de forma alegre, para divertirmos o nosso público.”

Qual o número de jogadores para o plantel final: “Não tem de ser um número fechado. O mais importante e o primeiro passo do nosso sucesso foi reduzir para ficarmos mais fortes. Pretendo que o jogador tenha oportunidade de lutar por um lugar. Se eu tenho dez posições em campo, tirando os guarda-redes, e tenho mais do que uma opção para determinada posição, não estou a dar a mesma oportunidade para esse jogador. Se eu tiver três opções para um lugar, aquele que é a terceira opção não está efetivamente a ter uma oportunidade para lutar por um lugar, e eu acho que isso é muito importante. O nosso plantel é rico em jogadores que podem desempenhar mais do que uma função. Então se eu não tiver tantos jogadores e tiver um plantel equilibrado e competente em que todos sentem que têm oportunidade de jogar, a motivação vai ser maior, a exigência vai ter de ser automaticamente maior e vão ter de ser competitivos uns com os outros, porque vão ter de constantemente provar que estão bem, contribuir para a equipa, porque sabem que têm um concorrente fortíssimo, motivado e que está preparado. A riqueza é não ter muitos para sermos mais competitivos e fortes.”

Aposta em cinco jovens da formação: “O plano é fazerem o primeiro treino [entre risos]. Pode acontecer. Primeiro é olhar sempre para aquilo que temos em casa, e foi nessa perspetiva que se fizeram os ajustes no mercado de inverno na última época, mas nunca deixar de parte quem contribuiu de forma grandiosa para o crescimento do Clube e para os títulos conquistados. Eu não coloco os miúdos da formação a uma distância muito grande dos mais velhos, mas também não me esqueço dos mais velhos e do contributo que foram dando. Outro aspeto fundamental no sucesso é a forma como os jogadores da formação são recebidos no balneário do Benfica, quase como um deles, porque ao longo dos anos têm treinado regularmente com a equipa principal. Depois vai depender daquilo que será o rendimento destes cinco atletas. É um caso diferente daquilo que foi o Gedson, o João Félix, o Ferro, o Florentino, o Jota e também o Ivan [Zlobin]. Todos eles chegaram à equipa A depois da afirmação na equipa B do Benfica, ou seja, eram regularmente titulares, e curiosamente nenhum destes [os cinco] tem isso. Depende do rendimento, mas eventualmente vão ter de passar por aquilo que estes jogadores passaram, ou seja, serem regularmente titulares na equipa B.”

Possibilidade de perder Félix: “Aquilo que eu sinto, e que eu via há seis semanas, é isto: por um lado, a equipa poder contar com o contributo do João era a nossa ideia. Depois, principalmente pelos adeptos, acho que o João poderia ser a grande referência que tem faltado ao Benfica, principalmente por ser português, por aquilo que representa, porque é um miúdo que veio da formação. Muitos comparam-no ao Rui Costa, apesar de o Rui dizer que o João tem pouco a ver com ele, mas é perceber isto: o Rui já não joga há dez anos e ainda estamos à procura do substituto dele. O João poderia ser a grande referência que a Família Benfiquista necessita e acarinha, porque foi um facto durante estes cinco meses. Gostava que o João vivesse isso, que saísse de Portugal e do Clube com uma passagem maior daquilo que foram apenas estes cinco meses. Se sair, vai como grande ídolo, mas gostava que saísse com mais algum tempo de casa para confirmar ainda mais aquilo que foram estes cinco meses. O Benfica pretende fazer também uma campanha internacional e poderia ser muito bom para o João. A acontecer, por um lado lamento que ele não tenha a oportunidade de viver este carinho, pelo menos mais um ano, que a Família Benfiquista lhe transmitiu durante este tempo, de sair daqui como verdadeiro ídolo do Benfica, mas, por outro lado, saber que é um jovem talento, convicto das suas ideias, pensa pela sua cabeça, e, se decidiu dar outro rumo à sua vida, certamente fará uma grande carreira.”

Reforços: “O Caio [Lucas] já estava contratado quando eu subi à equipa A, mas o mais importante é verificar que são jogadores de qualidade e agora é perceber, diariamente, qual o contributo que eles podem dar à equipa, porque são estas coisas que podem transformar as dinâmicas, é o contributo deles.”

Estreia na Champions: “Vou-me estrear na bancada [devido à expulsão no último jogo europeu com o Eintracht Frankfurt]. Será uma estreia diferente. Temos a noção de que necessitamos de fazer uma boa campanha para passarmos à fase seguinte, esse tem de ser o nosso grande objetivo. Essa é a história do Benfica, nós temos de entrar determinados nas nossas competições e é para isso que estamos a construir um plantel forte. Essa tem de ser a nossa motivação. As pessoas às vezes entendem o dia a dia, o jogo a jogo, o treino a treino como se fosse uma frase feita ou uma frase muito simples para o treinador do Benfica usar. Aqui, as coisas mudam tão rápido e o nosso trabalho é tanto de analisar e verificar aquilo que vai acontecendo no dia a dia que não há tempo para pensar mais à frente.”

Favoritos ao título em Portugal: “Quem parte à frente são Benfica, FC Porto, Sporting e SC Braga. Estas equipas partem claramente à frente por aquilo que é a construção dos seus plantéis, pela qualidade dos seus treinadores e pelo futebol que evidenciaram na última época. Vamos ter também o Vitória de Guimarães fortíssimo, mais uma ou outra equipa que pode fazer surpresa, mas estas cinco/seis equipas mais fortes do Campeonato partem à frente. Temos de provar em campo o nosso valor e a nossa ambição de voltar a vencer.”

Supertaça é para ganhar: “Um Benfica o mais próximo possível daquele que terminou a época. O grande objetivo é desde o primeiro dia preparar a equipa para competir e irmos analisando consoante aquilo que forem os nossos jogos de pré-época, para nos apresentarmos no dia 4 de agosto o mais próximo possível daquilo que foi o Benfica da última época.”

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