Mortes e novos casos voltam a disparar numa Itália isolada e à beira do colapso

Depois de dois dias em que a epidemia parecia estar a abrandar, a Itália regressou esta terça-feira aos números anteriores mais altos e não vê a luz ao fundo do túnel., apesar de estar fechada há 15 dias.

Enquanto os números continuam a aumentar e a vida segue nos mínimos, com tudo fechado, à exceção de supermercados e mercearias, farmácias e bancos, e todas as atividades culturais, desportivas e outras adiadas para data incerta, num futuro também ele incerto, as autoridades italianas estão, em plena crise, e com caráter de urgência, a tentar fortalecer o seu sistema de saúde à beira do colapso, para poderem dar resposta à avalanche dos doentes.

Essa foi a palavra de esperança que o comissário indigitado pelo governo italiano para a emergência do coronavírus, Domenico Arcuri, deixou esta terça-feira numa conferência de imprensa em Roma, na sede da Proteção Civil.

“Precisamos de mais máquinas, de mais camas, de mais pessoal. Temos de iniciar uma revolução no nosso sistema hospitalar”, lançou Domenico Arcuri.

Essa revolução já se iniciou e começa a dar frutos, com um aumento de equipamentos nos hospitais que resultou em mais 64% de vagas para cuidados intensivos, que passaram de 5343 no início desta crise para 8370 neste momento. Já o número de camas em pneumologia “quadruplicou”, afirmou Arcuri, explicando que elas passaram de “de 6.625 para 26.169”.

O responsável anunciou também que que 500 enfermeiras voluntárias e 300 médicos reforçarão nos próximos dias o corpo clínico nas regiões mais afetadas, no norte do país. Resta saber se isso será suficiente.

90 milhões de máscaras por mês
Com os doentes a inundarem os hospitais nas regiões mais atingidas pela pandemia, que continuam a ser a Lombardia, com o maior número de casos (30.703), Emília-Romana (9254), o Veneto (5948) e o Piemonte (5515), hospitais e unidades de saúde estão a braços com uma falta crónica de material de proteção para os seus profissionais de saúde, que a ajuda de outros países não chega para colmatar.

Itália recebeu nos últimos dias máscaras enviadas por países como a França, a Alemanha e a China. Este último deverá ainda enviar durante esta semana mais oito milhões de máscaras auto-filtrantes e outros seis milhões de tipo cirúrgico. Mas, claramente, não chega.

Segundo Domenico Arcuri, são necessários 90 milhões de máscaras por mês para atender às necessidades desta pandemia e, por isso, um consórcio de empresas italianas alterou a sua produção e vai começar a fabricar as máscaras em falta.

“O setor têxtil garantirá 50 milhões de máscaras por mês, mas precisamos de pelo menos 90 milhões”, afirmou o responsável citado pela AFP, sublinhando que as autoridades contam ainda “com a adesão de outras empresas” ao programa de produção, para “alcançar a autossuficiência”.

“Dentro de dois meses” a Itália dependerá “menos das importações, da concorrência entre os países e da guerra comercial em que estamos afundados”, afirmou Arcuri.

Enquanto isso não acontece, “oito milhões de máscaras FFP2-3 e 6 milhões de máscaras cirúrgicas vão chegar semanalmente da China a partir de 29 de março. Os nossos aviões irão recolher esse material onde quer que ele esteja”, garantiu.

Quanto aos ventiladores, que também escasseiam – continuam a chegar de Itália os relatos de que não há ventiladores para todos os doentes – as autoridades estão agora a distribuir diariamente 17 novos equipamentos destes pelos hospitais, o que “é cinco vezes mais” do que há alguns dias, segundo Domenico Arcuri.

Um saldo pesado
Num país traumatizado, a braços com uma situação quase impossível de gerir, e que regista a maior taxa de letalidade para doença – ela chega ali aos 9%, quando na China não passou dos 4% e na Alemanha se mantém por enquanto em 0,4% – as palavras de ordem continuam a ser quarentena, confinamento, isolamento e distanciamento social.

“É muito importante seguir as instruções do governo, mesmo que sejam difíceis e invulgares”, apelou Domenico Arcuri na conferência desta terça-feira. “A grande maioria respeita, mas imploro a todos os italianos que o façam. Devemos evitar que a situação de emergência se espalhe a outras regiões”, afirmou.

Terá bons motivos para os seus apelos. Desde que a quarentena forçada chegou aos cerca de 60 milhões de cidadãos em todo o território do país, não faltaram notícias de casos de desrespeito pelas medidas impostas.

O próprio diretor da proteção civil italiana, Angelo Borrelli, referiu esta semana vários casos em que cidadãos italianos desrespeitaram a ordem de quarentena, como o de um grupo de amigos da província de Lodi que foi de férias para a ilha de Ischia a 23 de fevereiro, causando ali vários casos de infeção, ou ainda o dos 29 moradores de Bérgamo que foram de férias para a Sicília e aí disseminaram a doença.

Bérgamo, justamente, é umas das cidades onde o covid-19 mais se tem espalhado e cobrado vidas. Ao ponto de na semana passada, a 18 de março, o exército ter sido requisitado para transportar dezenas e dezenas de caixões para outras cidades porque o crematório local deixou de ter capacidade para cremar todos os corpos de todos os que ali já foram vítimas da epidemia.

População muito idosa
Mas porque atingiu, afinal, a situação tais proporções no país?

Um dos gatilhos terá sido o jogo de futebol Atalanta-Valencia, para a Liga dos Campeões, que foi disputado há cerca de um mês no estádio de San Siro, em Milão, com a presença de 46 mil espetadores, adiantou o imunologista Francesco Le Foche, ao jornal Corriere dello Sport, que criticou duramente a UEFA por ter levado por diante a realização do jogo.

Parece agora óbvio, segundo os especialistas, que a doença já teria chegado silenciosamente ao país, e já estaria a disseminar-se, antes mesmo da confirmação dos primeiros dois casos em Roma, a 31 de janeiro, no mesmo dia em que o país cancelou todos os voos de, e para a China.

A data seguinte a assinalar é 20 de fevereiro. Esse dia marca um dos momentos decisivos para as proporções que a epidemia veio a tomar no país: na Lombardia, um homem testou positivo já depois de ter deixado as instalações do hospital onde passou em todas as triagens e observações sem que lhe tenham feito um teste. Este doente terá infetado outras pessoas, iniciando uma cadeia de transmissão a que se perdeu o controlo.

A 23 de fevereiro, com o número de doentes já em curva exponencial, várias localidades da região lombarda foram colocadas de quarentena, mas a batalha da contenção do covid-19 já estava perdida.

O perfil da população italiana, com 23% dos cidadãos acima dos 65 anos, também não ajuda nada neste caso, já que os idosos, justamente, são um dos principais grupos de risco, a par das pessoas que sofrem de doenças crónicas, como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e respiratórias. Além disso, inúmeros idosos sofrem também destas doenças.

Segundo os especialistas, é esta característica da população italiana que ajuda a explicar a elevada taxa de letalidade (9%) por covid-19 registada no país, a par da falta de ventiladores para assistir a todos os que precisam dela para sobreviver.

Nesta altura, com a estimativa por parte das autoridades de saúde de que os casos da doença deverão ascender a quase 600 mil – 250 mil das quais assintomáticas e as restantes já com sintomas – a Itália trava a maior das suas batalhas desde há muitas décadas – e o mesmo é verdade para o resto mundo.

Não por acaso, esta terça-feira, o presidente de Itália, Sergio Mattarella, pediu aos italianos “a mesma unidade” que viveram nos anos seguintes à II Guerra Mundial, que permitiu, nas suas palavras, “o renascimento moral, civil, económico e social” do país.

Foi um apelo feito no dia em que se assinalou o 76.º aniversário do Massacre das Fossas Ardeatinas, em que 335 civis italianos foram mortos pelos nazis nos arredores de Roma.

Este ano, pela primeira vez, por causa das medidas de exceção para travar a pandemia, não houve nenhuma cerimónia a assinalar o massacre, que o presidente designou como “uma das páginas mais dolorosas da história recente” do país. Uma lembrança negra, em tempos que vão negros também.