Home / Mundo / Neve na ‘cidade fantasma’ de Pequim

Neve na ‘cidade fantasma’ de Pequim

A neve que cobriu esta semana Pequim acentuou a paralisia de uma das maiores metrópoles do mundo, onde o novo coronavírus esvaziou ruas, encerrou negócios e interrompeu milhões de vidas. O surto, com origem em Wuhan, já matou mais de 800 pessoas e infetou 37 mil.

Ao início da manhã, no centro da cidade com 22 milhões de habitantes e seis milhões de automóveis, o canto do bulbul ventilado – pássaro residente da capital chinesa – ecoa em ruas outrora congestionadas.

“Parece que o dia do Ano Novo Chinês se prolonga indefinidamente”, observa um estrangeiro radicado na capital da China, referindo-se à principal festa das famílias chinesas, equivalente ao natal nos países ocidentais, e que este ano calhou a 24 de janeiro.

Milhões de trabalhadores deveriam ter já regressado das suas terras natais, mas a rápida propagação do vírus levou as autoridades a prolongar o feriado nacional, com consequências imprevisíveis para o tecido empresarial da segunda maior economia do mundo.

“Sinto que os empresários estão agora focados em como lidar com a situação”, explica Feng Shuni, dona de um gabinete de arquitetura que desenvolve projetos para espaços comerciais, à agência Lusa. “O fluxo de caixa das pequenas e médias empresas não é particularmente abundante”, nota. “Um encerramento de vários meses terá certamente grande impacto”.

Dobrando o mapa da China em quatro, no centro, surge precisamente Wuhan, foco do surto. O rio Yangtse, que atravessa a cidade, estende-se até Xangai, a “capital” financeira da China, a leste, e até Chongqing, o coração industrial do sudoeste chinês, a oeste. Wuhan fica também entre Pequim, no norte, e Hong Kong, no sul.

No final do ano passado, as autoridades locais reportaram 27 infetados com uma “doença misteriosa”, todos associados a um mercado de mariscos da cidade, e descartaram que a doença fosse transmissível entre seres humanos. Volvidas duas semanas, o número de casos reportados subiu para 41, mas a própria Organização Mundial de Saúde garantiu então que o surto não se alastrou para além do mercado. No entanto, a 16 de janeiro, o Japão reportou um caso – um homem que tinha visitado Wuhan, mas que não esteve no mercado. Pressentindo o encobrimento pelas autoridades locais, o Governo central colocou a cidade, a 22 de janeiro, sob uma quarentena de facto, com entradas e saídas interditas.

Song Yuhang, jornalista chinesa natural de Wuhan, estava de malas feitas para ir passar o ano novo à sua terra natal, mas as medidas de quarentena forçaram-na a ficar em Pequim, de onde passa agora os dias ao telefone com a família. “Denoto que o estado emocional deles se está a deteriorar”, admite. “Ninguém sai de casa, exceto o meu primo, uma vez a cada dois ou três dias, para comprar alimentos. O bairro foi trancado. Todas as entradas e saídas são registadas”, descreve.

A jornalista considera que a “grande tarefa” a seguir será a recuperação psicológica das pessoas que ficaram retidas na cidade. “Na verdade, isto constitui um grande desafio para o nosso país”, observa.

Em Pequim, condomínios estão a submeter moradores a medição de temperatura. Em alguns casos, os residentes bloquearam as entradas dos bairros, empilhando bicicletas e amarrando-as com arame farpado.

Comités de Prevenção da Epidemia foram oficialmente criados em todos os bairros, ilustrando a mobilização nacional, depois de o Presidente chinês, Xi Jinping, ter designado o combate ao vírus como “uma guerra popular”.

Um a um, moradores são questionados sobre o seu percurso ao longo do último mês, datas e números dos voos ou comboios em que viajaram, se têm animais domésticos, ou onde e com quem estiveram nos últimos dias. No final, a voz do outro lado despede-se assim: “Proteja-se, evite sair à rua”.

Mas o efeito mais imediato é a transformação dos hábitos sociais de um povo que convive à mesa, num país cuja densidade populacional torna inevitável a proximidade física.

“As pessoas passaram a comunicar, entreter-se e trabalhar ‘online'”, descreve Feng Shuni. “A forma de interagir deverá mudar durante algum tempo, mas creio que voltará ao normal após o surto acabar”.

“Quanto tempo vai demorar, ninguém sabe”, diz. “Talvez dois ou três meses, talvez meio ano”, acrescenta, “ou talvez mais”.