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O português que construiu um casino nos EUA

Empreendedor: Chegou a Boston, com 16 anos, para trabalhar numa fábrica de sapatos. Agora tem um império empresarial na área da construção.

No dia 13 de junho de 2016, António Frias tinha um encontro marcado com Donald Trump. O empresário integrava um grupo de investidores que apoiavam a campanha do então candidato à Presidência dos EUA. Um atentado em Miami, na véspera, mudou os planos de Trump. Mas a reunião acabaria por acontecer, semanas mais tarde, em Boston, cidade onde Frias aterrou com apenas 16 anos, para trabalhar numa fábrica de sapatos. Dono de um império de construção, o empresário chegou da reunião com mais uma moldura para a parede do seu escritório: tal como os Bush — pai e filho — Clinton, Reagan, Carter e Ford, também Donald Trump posou para a fotografia ao lado do português.

António Frias, 79 anos, é o dono da S&F Concrete Contractors, uma empresa de cimento sediada em Hudson, a cerca de 150 quilómetros de Boston. Discreto, poupado e admirador de Margaret Thatcher, montou o negócio com o irmão, Joseph, na década de 60, depois de anos a trabalhar como operário. Uma das obras últimas obras da construtora será inaugurada dentro de semanas: o Encore Boston Harbor, que abre a 23 de junho, vai ser um resort de luxo com casino. Pertence a Steve Wynn, empresário do ramo imobiliário, dono de vários hotéis e casinos em Las Vegas — como o Bellagio, por exemplo.

“A nossa parte está praticamente concluída. Está na fase de acabamentos, instalar mobiliários, máquinas de jogo, mas isto começou há dois anos. É das maiores que fizemos nos últimos tempos. Temos outra obra grande em Boston, o Centro de Congressos, de 48 andares, com um orçamento de 600 milhões de dólares. Estamos no 25º, tudo em cimento armado. Estamos ainda a construir um hotel lá perto. Neste momento temos perto de 700 pessoas a trabalhar connosco. São muitos ordenados para pagar. E aqui é à semana”, diz António Frias, ao telefone da sede da empresa, em Hudson.

“PAGAR QUOTAS AO DIABO”
No hall de entrada da S&F Concrete Contractors há uma Harley Davidson em exposição. Foi comprada por Frias numa angariação de fundos. Embora o cenário seja inusitado, a moto estacionada dentro do edifício não chama mais a atenção do que as fotografias expostas no gabinete do patrão. Estão lá uma boa parte dos ex-Presidentes norte-americanos, de Jimmy Carter à família Bush, Clinton e até antigo mayor de Nova Iorque, Rudolph Giuliani. A razão? Mais de 60 anos na América foram suficientes para dominar as contracurvas do sistema.

“É como pagar as quotas ao diabo”, diz ao Expresso, com tom de brincadeira, questionado sobre o seu patrocínio em campanhas eleitorais. “Contribuí e continuo a contribuir [para o Partido Republicano].” Não desvenda números — “isso é a alma do negócio” — e na última eleição apoiou Donald Trump, mas também já o fez com candidatos democratas, como com Kennedy e Jimmy Carter. “Gostei de o conhecer”, diz sobre Trump. “É um homem de negócios. Conversa fiada não adianta. É preciso trabalhar, produzir. Assim é que se cria riqueza.”

ESTÁDIOS E ARRANHA-CÉUS
No caso da S&F Concrete Contractors, a riqueza traduz-se num extenso portefólio de obras: o Gillette Stadium, onde jogam os Patriots, a Millenium Tower, arranha-céus mais alto de Boston, o MIT Simmons Residence Hall, em Cambridge, o estádio dos Boston Celtics, entre outros edifícios emblemáticos do estado de Massachusetts. “Estou cá há mais de 60 anos, trabalho por minha conta há 55. Nunca vi a economia desta maneira, temos rejeitado trabalho, é uma coisa louca. Trabalhei a Nova Inglaterra toda, Chicago, Nova Iorque, nunca vi nada assim. As pessoas falam mal do Trump mas tem havido investimento.”

Nascido nos Açores, depois de ter corrido os EUA com pá e picareta na mão, António Frias comprou uma velha bomba de gasolina para instalar a sede da S&F, em Hudson, onde os portugueses estão em maioria. Chegou a ser vizinho de Eusébio, em 1975, quando o benfiquista alinhou nos Boston Minutmen. Tinham-se conhecido num jogo do Benfica em Nova Iorque, em 1966, e ficaram amigos. Nesse dia tirou uma foto que hoje guarda ao lado dos presidentes. É a sua favorita: está no meio de Eusébio e Pelé.

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