Obras no IP3 (finalmente) a caminho, para acabar com a “estrada da morte”

Obras no IP3 (finalmente) a caminho, para acabar com a “estrada da morte”

É apenas só um passo, o primeiro, para mudar a face do itinerário principal que liga Viseu a Coimbra. No entanto, move-se: o contrato de empreitada foi assinado nesta sexta-feira e as obras no troço entre os nós de Penacova e da Lagoa Azul (foz do Dão) deverão iniciar-se em março. Já o fim da requalificação total do IP3 só lá para 2022

No vaivém constante de ambulâncias, é de perder o conto. Apenas o registo de ocorrências minucioso dos bombeiros de Penacova permite saber com exatidão que só num troço de 20 kms do Itinerário Principal 3 (IP3), correspondente à zona de intervenção da corporação, desde 1991 até ao final do ano passado, registaram-se 1850 acidentes, dos quais resultaram 1866 feridos. E 124 mortos, levando apenas em consideração os óbitos registados no local do acidente ou a caminho do hospital.

Aquelas negras estatísticas, divulgadas ao Expresso por Álvaro Miranda, da Associação de Utentes e Sobreviventes do IP3, deverão, finalmente, ganhar outras cores. Parte da estrada que é socorrida pelos bombeiros de Penacova está em vias de ver surgir as obras desde há muitos anos aguardadas, e que irão garantir melhores de condições de segurança no local.

Com efeito, o contrato para a empreitada de requalificação do troço entre os nós de Penacova e da Lagoa Azul (Foz do Dão) foi assinado na sexta-feira, em Mortágua, e é esperado que a obras comecem em março. Fonte oficial do Governo disse ao Expresso que o arranque dos trabalhos no terreno está dependente do visto do Tribunal de Contas.

Segundo Álvaro Miranda, dos sete pontos negros identificados pela associação no traçado do IP3 entre Viseu e Coimbra, dois estão localizados no lanço que vai entrar em obra.

€135 MILHÕES PARA TODO O IP3
A requalificação entre os nós de Penacova e da Lagoa Azul será, assim, o primeiro passo para mudar a face do IP3: o troço tem cerca de 16 kms, ou seja, pouco mais de uma quinta parte do percurso do itinerário principal entre Viseu e Coimbra, que distam 75 kms.

Já os custos desta intervenção inicial, com um prazo previsto de execução de 330 dias (11 meses), são de 11,8 milhões de euros. Na vertente orçamental, trata-se de uma mera amostra (menos de 9% do total) dos 135 milhões de euros necessários para a completa requalificação do IP3. Todo o montante será assegurado pelo Orçamento do Estado.

Sem um calendário definido, mas dentro de uma janela temporal de quatro anos, ficam as obras para a maior parte do percurso do IP3 entre Viseu e Coimbra (em julho do ano passado, foi dado o primeiro passo, o concurso para o projeto). Para efeitos de empreitada, o resto do IP3 está dividido em duas partes. Uma a sul do troço agora prestes a intervencionar, que ligará o nó de Penacova ao nó de Souselas (em direção a Coimbra); outra a norte (o trajeto mais extenso de todos) entre o nó da Lagoa Azul e o Nó de Viseu.

Na parte do IP3 que primeiro receberá as obras, as alterações do aspeto da via não serão muito significativas. Ao contrário dos dois troços que só mais tarde serão requalificados (nos quais haverá duplicação da via, isto é, com duas faixas de rodagem em cada sentido e em toda a extensão), na ligação entre o nós de Penacova e da Lagoa Azul os trabalhos são de outra natureza. Esta passa sobretudo pela beneficiação da situação pre-existente: reforço de taludes; criação de dois nós (Oliveira do Mondego e Cunhedo), para evitar as viragens à esquerda (uma das causas da sinistralidade); introdução de separador central e de vias de aceleração e de abrandamento; e reabilitação do pavimento, entre outras benfeitorias.

Quando a requalificação do IP3 estiver completa, o que no presente remete para o horizonte de 2022, 85% da extensão da via estará duplicada (duas faixas em cada sentido), em 12% do trajeto haverá 1+2 vias (conforme o relevo e as zonas de abrandamento ou de aceleração) e em 3% do percurso (nas pontes, por exemplo) haverá apenas uma faixa em cada sentido.

Serão ganhos evidentes em relação ao quadro atual, em que o traçado 2+2 apenas se encontra em 21% do percurso, e o 2+1 ocupa 63%. Já o 1+1 é uma realidade em 16% do IP3 entre Viseu e Coimbra.

Além dos impacto que o futuro IP3 terá na sinistralidade rodoviária (embora a estimativa do ganho esteja por quantificar, segundo fonte oficial do Governo), a redução do tempo de deslocação entre as duas capitais de distrito será significativa. A ligação Coimbra e Viseu, que hoje demora 65 minutos, será feita em 43 minutos.

COPO MEIO CHEIO E MEIO VAZIO
Na sexta-feira, na sessão de assinatura do contrato de empreitada das primeiras obras do IP3, o primeiro-ministro, António Costa, disse tratar-se de uma empreitada de “dimensão muito importante”, sendo “estruturante” para as regiões de baixa densidade.

Segundo António Costa, citado pela Lusa, a intervenção no IP3 é “uma peça muito importante” no ‘puzzle’ da revitalização do interior, “um dos grandes desafios do país”, salientou.

Quem também vê vantagens no que se perspetiva, mas sem deixar de apontar à metade do copo que considera estar vazia, é o presidente da Câmara de Viseu, o social-democrata Almeida Henriques. Ao Expresso, dizendo não ser “propriamente um fã da solução”, pois entende que todo o IP3 deveria ter um perfil de auto-estrada, o autarca social-democrata afirma que prefere “uma solução minimalista à situação atual, que é péssima”.

Com efeito, salienta Almeida Henriques, o que agora está em vias de arrancar no terreno “vai minimizar os riscos da estrada da morte”, e isso por si só é um bem inestimável.

O presidente da Câmara de Viseu considera a requalificação do IP3 de tal forma vital para a região que vai ao ponto de defender que “em ano eleitoral devia haver um compromisso de todos os partidos” no sentido de garantir a concretização do projeto.

“Já vi tanta coisa, já vi tantos lançamentos e anúncios sobre o IP3”, diz o autarca, em jeito de desabafo. De seguida, chama a atenção para um ponto que considera essencial: mesmo com a melhoria deste itinerário principal, “não se pode perder de vista a solução estrutural”. E essa, explica, vai além do IP3. “É preciso concluir o IC2, no qual falta a ligação entre Nelas e Mangualde. E é necessário assegurar a ligação Sul à A13”. Só assim, conclui, se irá “permitir desencravar toda a ligação a norte de Coimbra e a sul da Guarda”.

MORADA POSTAL? É NO IP3
Igualmente satisfeito com as obras que se anunciam, mas não inteiramente rendido a toda a solução desenhada, está Álvaro Miranda, da Associação de Utentes e Sobreviventes do IP3.

Miranda discorda de algumas características do projeto, como o facto de não haver um alargamento das pontes ou de se manter a via simples em alguns trajetos. “A nível de engenharia não há impossíveis. O que faltou foi vontade política” para requisitar mais meios financeiros para esta intervenção, afirma. Outros montantes permitiriam alargar pontes ou construir uma estrada em viaduto na zona da Livraria do Montejo, em que o IP3 (emparedado entre o rio e um parque natural, que não pode ser escavado) poderia crescer em viaduto, numa via sobreposta à atual.

Mas para já, a atenção da Associação está focada num ponto particular: os utentes aguardam que a Infraestruturas de Portugal lhes mostre o projeto da obra prestes a iniciar-se (informação que dizem ter-lhes sido prometida no verão passado, mas que ainda estão por receber).

Álvaro Coimbra está sobretudo curioso em saber como será feita a “melhoria das acessibilidades locais”, garantia que consta dos planos governamentais, mas que a associação que ver em que se traduz.

Algumas das melhorias previstas no troço que entrará em obra brevemente terão como implicação, garante Coimbra, a proibição de circulação de tratores e de máquinas agrícolas num troço de quatro kms no qual até ao momento esses veículos podem transitar. “Queremos saber quais os caminhos alternativos para as pessoas se deslocarem para os terrenos agrícolas”, diz.

É que alguns dos residentes da zona, mesmo que queiram, não podem fugir do IP3. “Sabe que para algumas pessoas se trata do único acesso direto a casa?”, pergunta o porta-voz da Associação de Utentes. “Sabe que há pessoas, em Porto da Raiva, cuja morada é o IP3?”

“Não, não sabia”, responde o jornalista.

O facto, pitresco, encerra uma dimensão óbvia: também por ele se percebe como a estrada, construída há décadas, no período áureo do cavaquismo, foi um monumental erro de projeto. São esses males de origem do IP3 que estão agora em vias de começar a ser remediados.