Pandemia está a expor desigualdades sociais em Moçambique

O reitor da Universidade de Moçambique (UDM) Severino Ngoenha considera que a covid-19 expõe as desigualdades sociais no país, onde, no limite, os mais pobres podem ter de escolher entre morrer à fome ou pela doença.

“Olhando para Moçambique, a covid-19 mostra também a desigualdade entre as nossas populações”, refere Severino Ngoenha, em entrevista à Lusa.

Por um lado, está a maioria da população, que por ser extremamente pobre e depender da economia informal para se alimentar diariamente, tem de sair à rua e é incapaz de seguir um maior confinamento ou distanciamento social, podendo estar mais exposta à infeção pelo novo coronavírus.

Além disso, os numerosos agregados familiares, as habitações e o saneamento precários tornam o isolamento social entre os pobres impraticável, até mesmo dentro de casa.

Noutro extremo, está uma minoria rica, que tem recursos para se manter confinada por muito tempo e até alternar entre o domicílio habitual e a casa de campo ou de praia, contrapõe o reitor da UDM.

“De facto, este é o grande drama: ou morrerem em casa de fome à espera que o vírus os atinja ou morrer de vírus, se saírem. Este é o verdadeiro drama existencial”, sublinha o também filósofo.

Ngoenha responsabiliza os governantes e a academia pela contínua situação de vulnerabilidade da maioria da população por terem negligenciado os serviços públicos e políticas viradas para o desenvolvimento social e económico.

As famílias mais ricas, “em vez de procurarem atendimento médico em hospitais moçambicanos, assegurando a existência de bons médicos no país, preferem procurar atendimento médico na África do Sul”, o país mais rico do continente, assinala.

Enviam os filhos para estudar em colégios no estrangeiro, porque ficaram indiferentes à degradação do ensino no país.

No campo alimentar, Moçambique não criou uma base produtiva que permita a sobrevivência das famílias pobres, caso a vizinha África do Sul imponha um bloqueio fronteiriço total ou encareça as mercadorias que exporta, acrescenta.

O país, prossegue, não aprendeu com o período em que viveu basicamente de repolho, por causa do bloqueio económico imposto pela comunidade internacional à África do Sul, devido à política de discriminação racial, o “apartheid”, que aquele país seguia.

“Quando as fronteiras reabriram, voltámos a depender economicamente da África do Sul, não materializando o processo de produção interna”, frisa aquele académico.

Severino Ngoenha defende que o impacto da pandemia da covid-19 deve promover uma mudança de mentalidade nas sociedades africanas, levando a uma aposta em serviços públicos de qualidade.

“A complexidade [dos problemas] exige que os fazedores de políticas públicas estejam em constante diálogo com aqueles que tenham outro tipo de conhecimento, neste caso o científico, mas também aquele conhecimento das populações”, aponta.

Para que o processo de tomada de decisão sobre políticas e serviços públicos produza resultados, tem de ser multilateral, envolvendo todas as esferas da sociedade e, principalmente, os destinatários da ação governativa.