Paulo Bragança: “Fui sem-abrigo em Londres e levei porrada por ter um cartão melhor para dormir”

O fadista, agora com 47 anos, vai lançar em abril Exílio. Tem ido a inúmeros festivais e abraçou um projeto com os Moonspell. Para trás estão os tempos terríveis, que conta nesta entrevista. Lição de vida.

Regressou há dias de uma visita a Angola, que foi onde nasceu em 1971. Em que cidade?
Nasci na fronteira com a Namíbia. O meu pai, sendo farmacêutico, havia excedentes de medicação que ele levava para onde fosse necessário. A minha mãe recusava-se a ficar em casa. Era uma miúda de 16 anos. Ele tinha 20. Ela ia sempre com ele e assim eu nasço no meio do deserto, apesar de ser registado em Luanda. Houve logo problemas porque houve transfusão de sangue sem meios. Foi voltar para trás, apanhar um avião e safar os dois.

Tem irmão e irmã também nascidos lá. A família fica depois da independência, certo?
Saí de lá com 12 anos. Tenho memórias. A minha mãe fica parva, descrevo as casas todas.

Quando saem em 1983, saem porque Angola não dá oportunidades e Portugal é que é?
Não, não. Nunca quisemos sair. A família do meu pai sempre viveu entre Brasil e África. Ainda tenho dois tios-avós no Brasil. Mas as coisas iam ficando bravas. Era o tempo da guerra civil do MPLA com a UNITA.

E qual foi a gota de água?
Nós morávamos no 8.º C. Um dia às duas da manhã tocam à campainha e não largam até abrir a porta. O meu pai vê três MPLA, traziam garrafas de whisky à cintura. Vinham desde o 1.º andar a saquear. E se não abrisse eles mandavam a porta abaixo. Mal abre vão duas kalashnikov para a barriga dele e uma para a barriga da minha mãe. A desculpa é que tinha saído daquele prédio uma bala silenciosa. Queriam passar revista à casa. E o meu pai acedeu. A coisa foi muito má. A minha mãe teve de fazer comida para eles, tivemos de os aturar e eles sempre “vou-te matar, isto foi daqui”, mas entretanto a pegarem em nós ao colo, a brincarem. Estavam fora de si.

Vieram para onde em Portugal?
Para Portugal viemos só meia dúzia de dias. Fomos para o Canadá, onde chegámos em janeiro. A firma do meu pai era uma multinacional que tinha capitais canadianos e sul-africanos, sendo as sedes em Toronto e em Joanesburgo. Chegámos, lá estão 35 ºC negativos, neve, e nós nunca tínhamos visto tal. A minha mãe entra em delírio, recusa-se a fazer fosse o que fosse. Estivemos lá seis meses. Fomos para Nova Iorque durante três meses. Último reduto: Brasil. Mas a minha mãe chega a São Paulo, onde estavam os meus tios-avós, e diz: “Então eu saio de um país de guerra e venho para aqui e os meus filhos têm de ir de segurança para a escola?” E viemos para Portugal. Lisboa e depois Cascais.

Refizeram a vida como? Tinham poupanças?
Foi um senhor que na altura era diretor de um banco que emprestou aos meus pais dinheiro para abrir um negócio. Depois dedicaram-se à restauração. Tínhamos uma pastelaria e dois hotéis pequeninos.

Chega aos 18 anos em Portugal no final dos anos 80. O objetivo é fazer a universidade ou a música já existe aí como projeto de vida?
A música sempre existiu porque o meu pai tocava guitarra portuguesa. Em África, na minha casa, eram frequentes os saraus fadistas.

Não teve dos pais pressão para estudar?
É uma coisa de que quase não os perdoo porque houve uns testes psicotécnicos que aconselhavam a que estudasse música e eles não ligaram nenhuma porque era só Direito. E foi Direito por linhas tortas. Fiz até ao terceiro ano e tenho ainda amigos desse tempo, da Clássica e da Lusíada. Um colega de curso, não sei como sabia que eu cantava, diz-me que vou fazer a Aula Magna da semana académica. Isso é que foi importante para mim.

Correu bem?
Lindamente. Mas pus logo harpa paraguaia. Aquilo deu logo um burburinho. O que é certo é que ali percebi que me senti tão bem que qual Direito qual caraças.

O objetivo passou a ser gravar um disco?
Aí começo a ir pelas casas de fado e a dar-me a conhecer.

Era convencional na forma de vestir?
Nem pensava nisso. Havia fotos minhas de fato e gravata. Não abri caminho para um novo fado, abri caminho para o meu caminho. Depois penso: não sou funcionário público, não vou de fato e gravata para o palco.