Quem é o novo líder nacionalista português

João Martins foi condenado a 17 anos de prisão pelo homicídio de Alcindo Monteiro. É atualmente um ideólogo nacionalista, com página na rede social VK, o equivalente russo ao Facebook.

Discreto, paciente, metódico, estudioso, licenciado, com o dom da palavra – são algumas das capacidades que lhe são apontadas por analistas das autoridades que acompanham a evolução da extrema-direita em Portugal.

João Martins, 44 anos, condenado a 17 anos de prisão pelo homicídio de Alcindo Monteiro, é apontado pela Polícia Judiciária (PJ), PSP e Serviço de Informações de Segurança (SIS) como o novo líder em ascensão nos designados “grupos identitários”, ou “fascistas do terceiro milénio” – como os caracteriza o investigador José Pedro Zúquete, num livro que escreveu sobre o tema – em crescimento na Europa.

Desde Mário Machado – ex-líder dos cabeças-rapadas hammerskins e atual dirigente do movimento nacionalista que quer ser partido, Nova Ordem Social – que não havia uma figura a concorrer para uma nova liderança dos nacionalistas. “João Martins tem sabido gerir muito bem o seu terreno de apoio, fora dos holofotes mediáticos e, nos últimos anos, sob os radares das autoridades, ao contrário de Machado”, sinaliza fonte policial.

Apesar de usar as redes sociais como plataforma de divulgação dos seus ideais, não é fácil encontrar João Martins numa simples pesquisa no Google. O seu perfil só aparece no VK, um equivalente russo ao Facebook, onde partilha fotografias (como a que publicamos) que mostram a sua atividade desde, pelo menos, 2012, data de uma foto de grupo em que está ao lado (e abraçado) de Gianluca Iannone, dirigente do CasaPound, um partido italiano neofascista.

Noutra foto, de dezembro de 2015, destaca-se à frente de um grupo, Misanthropic Division, em que alguns dos elementos fazem saudação nazi. Partilhou também, em outubro de 2016, a foto de um encontro em Portugal com nacionalistas de sete países.

Em 2017, foi o tradutor para português da bíblia dos identitários – Geração Identitária, do austríaco Markus Willinger, que assume a obra como “uma declaração de guerra”. Para o autor, “imigração em massa” e uma “propaganda seletiva e vilipendiante” contribuem para “a transformação da Europa numa não entidade”.

No acórdão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) sobre o caso de Alcindo é descrita a sua participação em diversas agressões a negros nessa mesma noite e, particularmente, na do cabo-verdiano. “Já no final, e com a vítima prostrada no solo em decúbito ventral, inanimada, o arguido João Martins colocou um pé sobre a cabeça da vítima, levantando os braços em atitude de triunfo”, é escrito.

O STJ recorda que João Augusto de Henriques Martins, nascido a 23 de novembro de 1974, “não mostrou sinais de arrependimento” no seu depoimento em tribunal. Nesta altura, tinha 21 anos e fazia parte do grupo de Machado – também condenado neste processo – e era já tido como o “ideólogo” dos neonazis. A defesa salientou o seu “gosto pelo estudo da filosofia política” dizendo que era “possuidor de extensa literatura acerca de tal matéria”.

A preocupação das autoridades com a extrema-direita é extensível a todos os grupos, mas é no movimento identitário que notam mais adesões: uma faixa etária mais jovem (muitos recrutados nas universidades), intelectualmente elevada, com solidez ideológica e normalmente sem violência – e participam em várias atividades com skins, neonazis e motards.