Roque Online trouxe aos angolanos mercado sem terem de sair de casa

Inspirado no famoso Roque Santeiro, antigo mercado de Angola, a plataforma Roque Online ajudou os clientes a “ir à praça” sem sair de casa, permitindo às vendedoras informais dar continuidade ao negócio, apesar das limitações do estado de emergência.

Em declarações à Lusa, a fundadora do projeto, Geraldine Gerardo, afirmou que a plataforma digital de comércio teve um crescimento “exponencial” desde o início da quarentena imposta pelo governo angolano para tentar controlar a pandemia de covid-19.

A partir de março, quando Angola fechou fronteiras e declarou o estado de emergência restringindo o comércio e os mercados informais, os pedidos do Roque Online “foram 5 ou seis vezes superior ao normal”, revelou a empreendedora.

Muitos mercados foram encerrados por não terem as condições higiénico-sanitárias e não cumprirem o distanciamento social exigido, apesar da contestação dos vendedores que alegam não ter outros meios de sobrevivência e só podem praticar a atividade agora às terças-feiras, quintas-feiras e sábados.

Mas no Roque Online, tal como no antigo Roque Santeiro, que funcionou em Luanda entre 1991 e 2011, continuou a ser possível encontrar um pouco de tudo, das comidas e bebidas aos produtos de beleza, moda ou artigos de construção.

São mais de mil artigos onde se destacam os produtos típicos angolanos, como o bagre e cacusso fumado ou seco, a fuba de milho e de bombó, frutas como a banana pão, ginguenga e maboque, mel silvestre ou a gimboa (planta herbácea), um inventário que vai duplicar já no próximo mês.

“O que faz a diferença, além de termos os produtos típicos angolanos, é termos também animais vivos ou abatidos”, adiantou Geraldine Gerardo, dizendo que o Roque Online atrai todo o tipo de clientes, dos angolanos aos expatriados.

“Os chineses, por exemplo, procuram muito produtos que não encontram noutros sítios, como animais ou alguns alimentos específicos”, indicou.

A empresária sublinha que, para os clientes, “não falta nada da experiência de ir ao mercado”, sendo até possível negociar preços diretamente com os vendedores, maioritariamente mulheres.

Estas, por sua vez, encontraram na plataforma um novo meio para escoar os seus produtos.

“Conseguimos incorporar o mercado informal numa plataforma digital de forma eficiente”, salientou a responsável da empresa, acrescentando que o Roque Online permite cumprir as regras do distanciamento social e evitar os aglomerados físicos que se têm registado um pouco por toda a Luanda.

Durante o estado de emergência, os vendedores registados tinham assim “uma linha direta para continuar a comercializar os seus produtos e fazer as suas vendas sem estar fisicamente nas praças, ultrapassando os constrangimentos deste período”.

“Já apresentámos mais propostas aos administradores dos mercados e outras entidades” para dinamizar a iniciativa e criar valor, realçou a empresária.

A Roque Online tem uma cobertura nacional, disponibilizando serviços em Luanda, Lubango, Huambo e Cabinda, cobrindo 18 mercados informais com quase 100 mil vendedores, além de ter outros 36 mil vendedores cadastrados, de forma individual ou em redes de cooperativas

Com o crescimento que se verificou desde março, “tivemos de fazer ajustes à nossa capacidade operacional e terciarizámos a parte logística”, afirma a CEO da plataforma, criada em setembro de 2018, e que dispõe das modalidades de venda “B2B” (entre empresas) e “B2C” (para o consumidor final).

O maior peso das vendas está no canal “B2B” por ser “mais fácil para as empresas usar a plataforma online e o aplicativo móvel”, admite Geraldine Gerardo, indicando que, para alguns vendedores, ainda existem barreiras tecnológicas, como dispor de um telemóvel ou cobertura de rede.

No entanto, acredita que o negócio vai continuar a crescer e que a tendência é serem cada vez mais procurados não só por clientes, mas também por vendedores, aproximando os mercados do mundo tecnológico.