‘Se necessário, oferecemos o ventilador ao homem que tem mulher e filhos’

O antigo Presidente da República disse, em entrevista à “RTP”, apelou aos mais velhos para que fiquem em casa e sigam as orientações das autoridades de saúde.

«Em Itália e Espanha, e aqui se calhar também, o médico muitas vezes tem de escolher entre aquele a quem aplica o ventilador e aquele a quem não aplica. Aquele a quem pode proporcionar a vida e aquela a quem retirar a vida. É uma situação que não quereriam nunca estar a viver», considerou. Ainda assim, «é evidente que é possível construir rapidamente ventiladores, como acontece naquele centro de investigação em Matosinhos, que no fim de Maio terá 400 e no fim do ano se for preciso tem 100 mil».

Porém, convicto de que, neste momento, não existem ventiladores suficientes para todos e que «a crise não vai acabar agora, porque é necessária uma vacina. E mesmo que apareça na melhor das hipóteses no fim do ano, vai demorar depois meio ano [ou] um ano a ser produzida em quantidade», Ramalho Eanes apelou aos mais velhos.. «Nós — e eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos… Nós, os velhos, devemos pensar que a nossa situação é igual à das outros. E se alguma coisa há, é a obrigação suplementar de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que [esta crise] vai ser ultrapassada. (…) Nós, os velhos, vamos ser os primeiros a dar o exemplo. Não saímos de casa, recorremos sistematicamente aos cuidados que nos são indicados e mais, quando chegarmos ao hospital, se for necessário oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos».

Em tom crítico, acrescentou ainda: «O homem julgou que era capaz de tudo, que podia dominar tudo. Esta situação pandémica mostra que afinal continua a ser o ser frágil, falível, que tem de estar em permanente ligação e comunhão com os outros». Para Ramalho Eanes, a actual crise de Covid-19 «vai fazer com que repensemos o próprio Estado, as próprias funções do Estado».

O sucessor de Francisco da Costa Gomes admitiu ainda que Portugal «deveria ter usado as Forças Armadas mais cedo». Considerou, no entanto, que «o confinamento é antinatural, antissocial e leva certamente a situações complicadas», porque «haverá necessidade de apoio psiquiátrico, psicológico». Porém, «é necessário que as pessoas se convençam que têm uma responsabilidade acrescida não apenas em relação ao presente mas em relação ao futuro. Têm de ficar em casa o tempo que for necessário».

Ramalho Eanes defendeu ainda que «talvez tivesse sido melhor fazermos isso [decretar o Estado de emergência] com mais antecedência. Embora seja muito fácil dizer o que era melhor depois de as coisas terem acontecido». Mesmo assim, «andámos bem, as instituições, o Presidente da República, o Governo, os partidos, as forças sociais, a PSP, as GNR, as Forças Armadas».