Venda de conservas dispara e as fábricas estão a contratar

Indústria mantém tendência de subida em períodos de crise, com crescimento de 288%. Empresas do setor trabalham mais horas e estão a admitir novos funcionários nas fábricas

Em época de crise, as conserveiras estão em contraciclo. Do Norte ao Sul, aumentou-se os turnos para fazer face à subida do consumo e há até quem, em tempo de pandemia, esteja a contratar mais funcionários. A subida atingiu o pico na segunda semana de março (+288%), mas continua bem acima dos números do ano passado (+50%). A tendência parece estar para durar.

“A subida já se sentiu em fevereiro, acentuou-se na última semana do mês e, na segunda semana de março, atingimos o pico, com vendas cinco vezes superiores ao período homólogo de 2019. Nas últimas duas semanas, vendeu-se quase o dobro e, agora, estamos com o consumo uma vez e meia acima do habitual”, explicou o presidente da Associação Nacional dos Industriais de Conservas de Peixe (ANICP), José Maria Freitas.

Guerras mundiais

A subida, sublinha José Maria Freitas, não surpreendeu o setor, já habituado aos “picos” em época de crise. “Foi assim na 1.ª e na 2.ª Guerra Mundial e na Guerra do Golfo”, afirma Sofia Brandão, diretora de Marketing de A Poveira. A fábrica da Póvoa de Varzim, detentora de marcas como a Minerva, “teve que se adaptar” aos tempos de pandemia. Plano de contingência, medição de temperatura à entrada, reforço da higienização, turnos distintos, toda a gente a trabalhar de luvas e máscaras, cuidados redobrados.

A laboração na fábrica da Póvoa de Varzim, que começa habitualmente às 7 horas, passou, agora, a iniciar-se às 5 horas. Foram contratadas funcionárias para substituir as que tiveram que ficar em casa a cuidar de filhos menores. Trabalha-se “a todo o vapor”. A produção subiu 50%. Cresceu o mercado interno e a exportação. Brasil e EUA fazem parte dos compradores.

Na Ramirez, em Matosinhos, o cenário repete-se. A partir de janeiro, com as notícias que chegavam da China, a conserveira mais antiga do país “jogou pelo seguro” e “reforçou logo a produção”. Com 220 funcionários, “está, neste momento, a 100% da capacidade produtiva”, explica o administrador adjunto, Luís Avides Moreira. Valeu-se dos stocks para fazer face às encomendas na semana do “pico”, quando, impulsionadas pela subida do consumo, as grandes cadeias de distribuição quiseram encher os armazéns. Para suprir faltas, recorreu ao trabalho temporário.

José Maria Freitas é também presidente da Cofisa, sediada na Figueira da Foz e dona das marcas Vasco da Gama e Cícero. Já teve que contratar pessoal. “Estamos a terminar o processo de admissão de 20 novos funcionários, a juntar aos 260 que já tínhamos”, explicou. A produção praticamente duplicou e, no “pico”, os stocks para três meses “quase desapareceram”. Agora, há que repô-los e, por isso, o reforço da produção deverá manter-se nos próximos meses.

Cabaz de compras

Em Peniche, a European Seafood Investments, a maior conserveira do país, que emprega mais de 900 pessoas, colocou um anúncio para contratar.

A subida no consumo, diz José Maria Freitas, deve manter-se, já que, em alturas de crise, as conservas fazem parte do chamado cabaz de compras estratégico. “São ricas em ómega 3, têm um preço baixo, podem ser armazenadas por muito tempo e enviadas para qualquer parte do Mundo”, justifica.

Atum vale 80%

O atum representa, em Portugal, 80% das conservas consumidas. Segue-se a sardinha. Há ainda cavala, lulas, bacalhau, mexilhões, amêijoa, berbigão, anchovas e polvo, num total de 52 mil toneladas de pescado/ano.

Procura em alta

Na semana de 9 a 15 de março, a venda de conservar atingiu o “pico”. Um estudo da Nielsen diz que, nessa altura, em que foi declarada a pandemia – a 11 – e encerradas as escolas – a 13 -, o aumento nas vendas foi de 288%. Foi o produto que mais cresceu, ultrapassando o papel higiénico (+229%), os lenços e guardanapos (+163%) e os produtos instantâneos (+123%).

Contratação lenta

José Maria Freitas, da Associação Nacional dos Industriais de Conservas de Peixe (ANICP), só lamenta a lentidão na admissão de novos funcionários. “O processo demora, em média, 15 dias! É muito! Temos que recorrer ao privado e pagar para fazer testes à Covid-19 aos novos trabalhadores e evitar contágios”, explica.